Vila de Frades, Vidigueira — onde o vinho atravessa dois milénios de história

Falar da Gerações da Talha não é falar apenas de vinho. É falar de tempo, de território, de gestos herdados, de um conhecimento que nunca foi escrito em manuais, mas transmitido de geração em geração, talha após talha. Em Vila de Frades, no coração da Vidigueira, o vinho não é apenas produzido: é vivido.

Neste pequeno lugar do Alentejo, onde hoje vivem cerca de 800 pessoas, existiram outrora 154 adegas — praticamente uma adega para cada cinco habitantes. Um dado impressionante que revela algo essencial: aqui, o vinho nunca foi exceção. Sempre foi regra.

“Em 1800 e pouco, havia 154 adegas para 800 habitantes. Isto dá uma adega para cada 5 pessoas.”
— Teresa, Gerações da Talha

Os vinhos de talha são um tema incontornável quando se fala do Alentejo e não como exotismo folclórico, mas como uma linha contínua de civilização. E há uma frase, simples e definitiva, que enquadra tudo:

“Esta é uma tradição milenar trazida pelos romanos para este território e que nunca foi abandonada até aos dias de hoje."

É precisamente nesse “nunca foi abandonada” que mora a diferença entre tradição e arqueologia. Em Vila de Frades, a talha não é um objeto de museu: é um instrumento de trabalho, uma forma de pensar o vinho e, acima de tudo, um modo de estar no mundo.

A talha: barro, território e civilização

A talha é um recipiente de barro, simples na forma e absolutamente sofisticado no significado. A sua presença no Alentejo remonta à época romana, há cerca de dois mil anos, quando os romanos adaptaram a sua viticultura aos recursos locais.

“O vinho de talha veio para aqui pelos romanos há 2000 anos. Aqui havia barro. Por isso, o recipiente foi feito em barro.”

Tal como no Norte de Portugal se usou a pedra porque havia pedra, no Alentejo usou-se o barro porque era isso que a terra oferecia. A talha é, portanto, uma resposta direta ao território. Uma expressão pura de terroir cultural.

Após a queda do Império Romano, foi a Igreja quem manteve viva esta tradição. O vinho de talha tornou-se vinho de missa, preservado pelas ordens religiosas que se fixaram em Vila de Frades, garantindo a continuidade de um saber ancestral.

Josko Gravner, que também distribuímos com muito orgulho, regressou à ânfora para reencontrar a verdade; em Vila de Frades, a verdade nunca saiu da talha. 

Uma adega com mais de 250 anos — e uma missão de vida

A adega das Gerações da Talha tem mais de 250 anos e chegou à família de Teresa há cerca de um século, através do seu bisavô. Hoje, o projecto é conduzido com um profundo sentido de responsabilidade histórica. 

“Consigo dar um carinho a uma talha de 600 litros que nunca daria a um depósito de 100 mil. Aqui consigo pôr a minha assinatura em cada talha.”

Num mundo dominado por tecnologia, correções e estandardização, Teresa escolheu o caminho inverso: menos intervenção, menos energia, mais atenção humana.

“Podemos fazer tudo isto sem nada de energia (elétrica). Isso é mesmo muito importante.”

Mais do que um projecto vitivinícola, Gerações da Talha é assumido como uma missão:

“É levar o vinho além-fronteiras e dizer ao mundo: existe isto. Temos este grande legado que atravessou anos e anos de história.”

Como nasce um vinho de talha — o processo vivo

O vinho de talha é feito com a uva inteira: sumo, películas, grainhas e engaços entram juntos na talha. A fermentação é espontânea, conduzida apenas pelas leveduras naturais da uva.

Durante a fermentação, o dióxido de carbono empurra as partes sólidas para o topo. Para evitar pressão excessiva — que pode literalmente rebentar a talha — é necessário um trabalho diário, físico e atento.

“Fazemos esta remontagem três vezes por dia, durante um mês.”

Quando a fermentação termina, as partes sólidas descem e formam a chamada “mãe”. O vinho estagia cerca de quatro meses, estabilizando naturalmente com o frio do inverno, sem correções, sem colagens, sem filtrações industriais.

“É mesmo a uva que faz tudo. A fermentação, a estabilização e a filtração.”

O vinho é retirado por uma torneira de madeira, atravessando a própria mãe, que funciona como filtro natural. O resultado surpreende pela limpidez e pureza.

Castas antigas, identidade intacta e viticultura biológica

As castas utilizadas são as mais antigas da região, perfeitamente adaptadas ao clima e ao solo:

Brancas

  • Antão Vaz

  • Perrum

  • Diagalves

  • Manteúdo

  • Roupeiro

Tintas

  • Alfrocheiro

  • Moreto

  • Morisco

  • Trincadeira

  • Aragonês

  • Castelão

Paralelamente ao trabalho com castas antigas e autóctones, Teresa vem a aprofundar, há vários anos, uma viticultura de base biológica, hoje complementada por experiências criteriosas em biodinâmica, desenvolvidas com o acompanhamento de Anna Jorgensen, da Cortes de Cima, sempre com o foco na leitura mais fiel do lugar e não na aplicação dogmática de métodos.

São vinhos que desafiam preconceitos modernos: podem ser bebidos jovens, mas têm estrutura, acidez e composição fenólica para envelhecer longamente.

“É um vinho muito bom novo, mas com 1, 2, 5 ou 10 anos continua a melhorar.”

A “mãe”: o segredo da robustez e da limpidez

No vinho de talha, a palavra “mãe” não é metáfora: é estrutura. Durante meses, o vinho convive com a parte sólida, e essa relação constrói robustez e estabilidade.

“A robustez deste vinho… tem a ver com o facto de estar em contacto com aquilo que nós chamamos a mãe… e de vir a ser filtrado pelas próprias massas.”

Este ponto é decisivo para quem ainda associa talha a rusticidade turva: a talha pode entregar vinhos de notável limpidez, precisamente porque a filtração acontece por gravidade e pelo próprio “corpo” da uva — como se a natureza fechasse o ciclo sem pedir permissão à máquina.

São Martinho: quando a técnica se torna ritual social

Há uma data que organiza o calendário simbólico do vinho de talha: São Martinho. É o momento da abertura das talhas, quando o vinho deixa de ser promessa e passa a ser partilha — com mesa, canto e comunidade.

“O dia da abertura das talhas é o dia mais esperado do ano. É o dia em que se… partilha um vinho com os amigos.”

Em Vila de Frades, esta celebração assume dimensão própria e integra um calendário cultural que, ano após ano, reativa o sentido de pertença e continuidade.

Gerações da Talha: vinho sem máscaras

Os vinhos das Gerações da Talha não procuram agradar a todos. Procuram ser verdadeiros. Não escondem o território, não maquilham o tempo, não se adaptam a modas. São histórias líquidas, contadas com barro, uva e paciência.

“Histórias puras e verdadeiras contadas de forma líquida.”

Num mundo cada vez mais uniforme, estes vinhos lembram-nos que o futuro do vinho passa, muitas vezes, por respeitar profundamente o passado.