Damijan Podversic: Brancos de maceração prolongada, feitos para a mesa e não para a moda
Há produtores que fazem vinhos “diferentes”.
E há produtores que fazem vinhos inevitáveis, porque cada escolha resulta de uma necessidade profunda, não de uma tendência.
Damijan Podversic, no Collio Italiano (Friuli, junto à fronteira com a Eslovénia), pertence claramente ao segundo grupo. Os seus vinhos são frequentemente classificados como orange wines, mas essa designação diz muito pouco sobre o que realmente está no copo. Aqui, o contacto prolongado com as películas não é um manifesto estético nem um gesto provocatório: é uma ferramenta de estrutura, tensão e longevidade.
“What we do in our cellar is nothing new. The history of wine is 8,000 years old, so it would be arrogant to say that we invented something.” Tamara Podversic
Estes são vinhos pensados para a mesa. E isso fica claro quando percebemos que a Ribolla Gialla de Damijan já integrou um pairing da Osteria Francescana, de Massimo Bottura, um dos restaurantes mais importantes do mundo.

Collio: colinas, ponca e uma viticultura de profundidade
No Collio não há planícies. As vinhas vivem em encostas, expostas ao vento, à chuva e a uma alternância constante entre a influência marítima do Adriático e a proximidade das montanhas. É precisamente esta combinação que permite uma viticultura de precisão, com sanidade natural e maturações longas.
O solo dominante chama-se ponca (ou opoka) — uma alternância de marga e arenito que se fragmenta facilmente, obrigando as raízes a descerem profundamente em busca de água e nutrientes. Damijan trabalha sem qualquer sistema de rega, com uma visão orgânica e biodinâmica: o solo tem de estar vivo, porque é ele que determina a energia do vinho.

Nas plantações mais recentes, as raízes atingem profundidades impressionantes logo nos primeiros anos, sinal de um ecossistema equilibrado e resiliente.
Vindimar pela grainha: maturação fenólica antes de tudo
“Today there is a fashion where everyone is running for acidity. Sometimes the wines are just green.” Tamara Podversic
Num mundo do vinho cada vez mais obcecado com números de acidez, pH, graus alcoólicos, Damijan e Tamara insistem num critério simples e antigo: provar a grainha.
Uma grainha verde é amarga, vegetal, dura. Uma grainha madura é castanha, estala facilmente e liberta taninos finos e “doces”. É essa maturação fenólica que define o momento da vindima e, consequentemente, o equilíbrio do vinho.
Para Damijan, colher cedo para “preservar acidez” pode resultar em vinhos verdes, tensos de forma artificial. A sua tensão nasce da maturidade real da uva, da textura e da estrutura, não da sub-maturação.
“Authenticity starts with the ripeness of the seed. If the seed is green, the wine will always be green.”
Brancos feitos como tintos: o método da casa
Damijan gosta de lembrar que a história do vinho tem milhares de anos e que seria arrogante dizer que alguém “inventou” algo. O que ele faz é levar até ao fim uma lógica antiga.
Na adega, o método é o mesmo para todas as castas:
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Desengace
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Fermentação espontânea
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Maceração longa com as películas (2 a 3 meses)
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Pisa manual
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Fermentação maloláctica ainda em contacto com as películas
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Estágio longo (cerca de 3 anos) em grandes tonéis de carvalho
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Uma trasfega por ano, sem filtração
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Estágio adicional em garrafa antes da comercialização
O resultado são vinhos estáveis, profundos e já preparados para a mesa quando chegam ao mercado. Aqui não há pressa, nem concessões.

A frase de Soldera e a recusa da moda
Damijan fez parte de um círculo extraordinário de produtores italianos. Num desses encontros, Gianfranco Soldera, figura mítica de Montalcino, foi directo:
com vinhos brancos “normais”, nunca atingiria o nível dos melhores do mundo; para fazer vinhos verdadeiramente sérios, teria de macerar também as uvas brancas.
Essa frase não foi um incentivo à provocação, mas à ambição.
Anos mais tarde, Tamara, filha de Damijan, resumiu tudo com uma simplicidade desarmante:
"my dad never wanted to follow trends"
Num mundo onde estilos, discursos e tendências mudam constantemente, essa coerência é talvez o traço mais raro e mais valioso do seu trabalho.
“The idea is very simple: to do white wines as red wines, keeping the same tactile parts.”
Ribolla Gialla: profundidade, silêncio e memória
Entre todas as castas do domínio, a Ribolla Gialla ocupa um lugar central. Pouco exuberante no nariz, quase tímida, é na boca que revela a sua grandeza: tanino fino, mineralidade profunda, persistência longa.
A maceração prolongada (60 a 90 dias), seguida de anos de estágio em grandes tonéis e em garrafa, transforma a Ribolla num branco de arquitectura, mais próximo de um grande tinto pela forma como ocupa o palato.
Não é um vinho para impressionar à primeira prova. É um vinho que cresce com o tempo — no copo, no prato e na memória.
E quando um vinho assim encontra o contexto certo, tudo faz sentido: a sua presença num pairing da Osteria Francescana confirma que estes não são vinhos de nicho, mas vinhos de alta gastronomia contemporânea.
A gama Damijan Podversic na Temple Wines
Kaplja
O blend identitário da casa. Equilibrado, amplo, profundamente gastronómico. Um retrato do território e do método de Damijan num só vinho.
Malvasia
Menos exuberante no nariz, mais densa e envolvente na boca. Textura cremosa, salinidade e um apelo natural à mesa.
Nekaj (Friulano)
O lado mais luminoso e acessível da gama, sem nunca perder estrutura. Ideal para introduzir o estilo da casa sem simplificações.
Pinot Grigio (sold out)
Uma leitura séria e estrutural da casta. Mineral, táctil, extremamente versátil em contexto gastronómico.
Prelit
O tinto do domínio: elegante, profundo, mais arquitectónico do que exuberante. Um complemento natural à filosofia da casa.
Ribolla Gialla
O ápice. Um branco de tempo, de tanino e de silêncio. Um vinho que pede pratos à altura — e que recompensa quem o escuta.
Talvez o termo orange wine esteja fora de moda. Melhor assim.
Os vinhos de Damijan nunca dependeram de rótulos nem de tendências.
Eles pertencem a uma categoria mais rara e mais durável:
vinhos verdadeiros, feitos com tempo, pensados para a mesa e para quem já não procura atalhos.
