Gianfranco Soldera: The Pursuit Of Balance
"Harmony and proportion have to be the basis of every one of man's actions."
Gianfranco Soldera
A Toscana ocupa um lugar muito especial na história da Temple Wines.
Muito antes de criarmos a Temple Wines, Guilherme Corrêa viveu em Itália alguns dos anos mais determinantes da sua formação. Foi ali que estudou na Associazione Italiana Sommelier (AIS), mergulhando profundamente na cultura gastronómica italiana e desenvolvendo duas paixões que o acompanham até hoje: o vinho e a gastronomia.
Foram anos de descoberta intelectual e sensorial. Enquanto muitos estudavam apenas regiões, castas ou técnicas de prova, Guilherme interessava-se sobretudo pela relação entre o vinho, a gastronomia, a cultura e as pessoas. Foi também nessa época que começou a construir aquilo que mais tarde se tornaria uma das suas marcas distintivas: uma visão profundamente humanista do vinho, onde uma grande garrafa nunca está dissociada de uma grande refeição, de uma grande história ou de um grande território.
Essa paixão pelas harmonizações tornou-se uma verdadeira especialização pessoal, visível ainda hoje nas crónicas gastronómicas e de harmonização que escreveu para a Revista de Vinhos, textos que revelam uma rara capacidade de ligar produto, tradição, cozinha e emoção. Leia mais.
Mas o destino reservava-lhe algo ainda mais importante. Durante esses anos em Itália, teve o privilégio raro de ser apadrinhado por Gianfranco Soldera, uma das figuras mais influentes, respeitadas (e controversas) da história do vinho italiano. Mais do que um produtor lendário, Soldera tornou-se um mentor. Foi ele quem lhe abriu as portas de uma Itália vínica normalmente inacessível, apresentando-lhe produtores, famílias e territórios que moldariam profundamente a visão que hoje está na origem da seleção da Temple Wines.
Ao lado de Gianfranco, Guilherme percorreu Itália, visitando produtores como Josko Gravner, Giuseppe Mascarello, Giacomo Conterno, Valentini Ferruccio Fenocchio e muitas outras figuras lendárias do vinho.

Ferruccio Fenocchio e Gianfranco Soldera, foto tirada pelo Gui em viagem com o maestro pelo Piemonte.
Soldera achava que Fenocchio era a maior promessa do Barolo tradicional, mas infelizmente ele tirou a sua própria vida de forma trágica, e a propriedade foi vendida pela sua mãe.
Como o próprio Soldera disse:
"Everything comes together in Nature; it's there you find an explanation for everything, from life through to death."
Essa frase resume não apenas a filosofia de Soldera. Resume também aquilo que Guilherme encontrou nesses anos de aprendizagem. Uma forma completamente diferente de olhar para o vinho. E isso tudo nos antes dos seus 30 anos! Imagine a base que isso lhe forneceu em um momento tão importante da sua carreira.

O grande outsider do vinho italiano
Existe uma curiosa ironia na história de Gianfranco Soldera. Hoje é reconhecido como uma das figuras mais importantes da história de Montalcino. Mas nunca foi realmente um homem de Montalcino. Nasceu em Treviso, cresceu em Milão e construiu uma carreira de enorme sucesso no setor dos seguros antes de entrar no mundo do vinho. Quando decidiu procurar uma propriedade para concretizar o seu sonho, começou por Veneto e depois por Piemonte. Só mais tarde chegou à Toscana, e buscou o apoio de um dos maiores mestres da Sangiovese na história italiana, o "palatista" Giulio Gambelli. Quando visitou Case Basse em 1972 encontrou uma propriedade abandonada e viu nela algo que ninguém mais viu... Comprou-a praticamente de imediato.
Décadas mais tarde, o jornalista e Master of Wine Nicolas Belfrage escreveria algo que se tornaria célebre:
"If you have not tasted his Brunello, you have not tasted Brunello."
Poucos produtores transformaram tão profundamente a perceção mundial de uma região.
Case Basse nunca foi uma vinha
Uma das grandes revelações é perceber que Gianfranco nunca acreditou que uma grande vinha fosse suficiente para produzir um grande vinho.
Para ele, era necessário algo muito maior. Um habitat. Um ecossistema. Uma paisagem completa. Por isso preservou florestas, criou lagos, plantou milhares de espécies vegetais e construiu um dos jardins privados mais extraordinários de Itália ao lado de Graziela Soldera. Até mesmo instalou centenas de caixas-ninho para aves e insetos e promoveu estudos científicos sobre biodiversidade décadas antes de a palavra se tornar moda.
"A great wine requires a habitat that is complete, unspoilt, in a word – perfect."
Hoje, quando muitos produtores falam de biodiversidade, sustentabilidade ou agricultura regenerativa, vale a pena recordar que Soldera já vivia esses princípios há mais de quarenta anos.
O vinho nasce na vinha
Entre todas as frases de Gianfranco Soldera, talvez nenhuma seja tão famosa quanto esta:
"Wine is made in the vineyards not in the wine cellar."
No sua vida, esta ideia surge repetidamente e foi o que explicou ao Gui em sua primeira visita. "Você não está entendendo nada, não é mesmo? Minha adega é muito simples, não há tecnologias... mas é porque eu faço vinho nas minhas vinhas e não na adega!"
A adega não cria grandeza. A adega apenas evita destruí-la. Por isso Soldera dedicava uma obsessão quase absoluta às vinhas com rendimentos minúsculos, observação constante obsecada e intervenção mínima.
Em média, poderia legalmente produzir cerca de 60.000 garrafas por ano, mas Soldera produzia não mais que 15.000. E muitas vezes sensivelmente menos!
Porque para Soldera quantidade e excelência eram conceitos incompatíveis.
Como dizia:
"If you produce more, the quality deteriorates."
A busca da harmonia
O tema da harmonia aparece em praticamente todas as páginas do livro de Soldera. Na paisagem, música, vinha, vinho, vida. Uma das passagens mais marcantes dele sempre vai ser:
"The first thing I look for in my wine cellar is harmony."
"Harmony and proportion have to be the basis of every one of man's actions."
Para Soldera, a harmonia não era um conceito estético, era uma filosofia existencial. e o vinho apenas refletia essa visão.

Foto tirada em 1997. E é histórica porque segundo Gianfranco, foi a primeira vez que ele tirou uma prova do 1997, nem ele tinha provado ainda...
O homem que enfrentou o mundo
Poucos produtores geraram tanta admiração, mas também poucos geraram também tanta controvérsia. Defensor intransigente da Sangiovese pura e crítico feroz da industrialização, Soldera incomodou muita gente ao longo da sua vida. Mas nunca recuou.
Como escreveu:
"Tradition is often stupid because men tend to follow in each other's mistakes."
Talvez seja precisamente essa independência intelectual que explica porque continua a ser uma figura tão fascinante. Nunca procurou consenso. Procurou a verdade, na vida e nas vinhas.
O ataque que abalou o mundo do vinho e a independência absoluta de Soldera
Em dezembro de 2012, o mundo do vinho assistiu a um dos episódios mais chocantes da sua história recente. Um antigo funcionário de Case Basse abriu deliberadamente as torneiras das grandes botti da adega e destruiu milhares de litros de vinho. Seis colheitas desapareceram em poucas horas. Décadas de trabalho correram literalmente para o esgoto.
A reação internacional foi imediata. Produtores, jornalistas, colecionadores e amantes do vinho de todo o mundo manifestaram solidariedade para com Gianfranco e Graziella Soldera. O Consorzio del Brunello di Montalcino reuniu-se de emergência e propôs uma recolha de vinho entre os seus membros para ajudar a compensar as perdas sofridas por Case Basse. Mas quem conhecia Gianfranco Soldera sabia que a sua resposta seria diferente. Agradeceu profundamente o gesto, mas recusou-o.
Para muitos, a decisão pareceu surpreendente. Para quem conhecia a sua forma de pensar, era inevitável. Soldera acreditava que um vinho não podia ser substituído por outro. Cada garrafa era a expressão irrepetível de um lugar, de uma colheita e de um ecossistema específico. Aceitar vinho de outros produtores, por mais prestigiados que fossem, seria negar precisamente aquilo que sempre defendera.
A sua resposta foi firme. Em vez de beneficiar diretamente da iniciativa, sugeriu que os recursos fossem utilizados para investigação sobre a Sangiovese e para a promoção do património vitícola de Montalcino.
Por detrás dessa decisão estava uma convicção que repetiu ao longo de toda a vida:
"Wine is made in the vineyards, not in the wine cellar."
E, acima de tudo, uma ideia ainda mais profunda que o grande Gianfranco não produzia simplesmente Brunello, ele produzia Case Basse.
Na verdade, o afastamento de Soldera da DOCG Brunello di Montalcino vinha de muito antes do ataque. Durante décadas manteve uma relação complexa com o Consorzio. Discordava da crescente burocratização da denominação, rejeitava a ideia de dividir Montalcino em subzonas oficiais e acreditava que a verdadeira identidade de um vinho não podia ser reduzida a regulamentos administrativos (além de outras práticas ilegais que não nos convém falar aqui).
O próprio Soldera recusava estabelecer uma relação simplista entre composição mineral do solo e sabor do vinho. Observava que os solos de Case Basse mudavam "a cada dez metros" e que a grandeza de um vinho surgia da interação infinitamente mais complexa entre solo, plantas, clima, biodiversidade e intervenção humana.
Após o episódio de 2012, as tensões tornaram-se irreversíveis. Em março de 2013, Gianfranco Soldera apresentou a sua demissão do Consorzio del Brunello di Montalcino. A partir daí, os vinhos passaram a ser engarrafados fora da DOC Brunello, inicialmente sob a denominação IGT Toscana. Para muitos produtores, abandonar a mais famosa denominação de Itália teria sido impensável, mas para Soldera, foi apenas uma consequência lógica.
Afinal, como escreveu no seu próprio livro:
"The first thing I look for in my wine cellar is harmony."
E a harmonia, para Gianfranco Soldera, nunca foi algo que pudesse ser decretado por um regulamento. Era algo que nascia da natureza, da paisagem, do tempo e da fidelidade absoluta aos seus princípios.
Talvez por isso as garrafas de Soldera sejam hoje algumas das mais procuradas do mundo. Não representam apenas um grande vinho de Montalcino e sim uma das últimas expressões de independência absoluta no vinho contemporâneo.
Porque é que Soldera triunfava mesmo em colheitas difíceis?
O Master of Wine Alex Hunt escreveu uma observação particularmente relevante sobre Gianfranco Soldera:
"One of the many reasons why Soldera has won so much respect is this ability to produce great wines even in the trickiest vintages."
A explicação não está apenas na vinha. Está no completo ecossistema de Case Basse.
Case Basse situa-se na zona sudoeste de Montalcino, junto a Santa Restituta, uma das áreas historicamente mais reputadas para Sangiovese. As vinhas encontram-se entre os 300 e os 350 metros de altitude, beneficiando de uma combinação rara de maturação consistente, ventilação constante e amplitudes térmicas significativas durante o ciclo vegetativo. As brisas noturnas descem das colinas e ajudam a preservar frescura aromática e equilíbrio ácido, enquanto os solos pedregosos garantem drenagem eficiente mesmo em anos mais húmidos. Mas seria simplista atribuir a grandeza de Soldera apenas ao terroir geológico...
O próprio Gianfranco rejeitava a ideia de que a composição mineral do solo explicasse diretamente o aroma ou o sabor do vinho. O galestro de Case Basse, uma forma particularmente friável e complexa de xisto laminado típico da região, varia constantemente ao longo da propriedade. Segundo Soldera, a cada dez metros o solo muda. Para ele, não era uma questão de mineralidade. Era uma questão de complexidade. O solo contribuía para aquilo que chamava "an infinity of possibilities".
Essa complexidade é amplificada por um dos ecossistemas mais extraordinários alguma vez criados numa propriedade vitícola.
Quando Gianfranco e Graziela Soldera chegaram a Case Basse encontraram uma propriedade abandonada. O que muitos considerariam um problema transformou-se numa oportunidade única. Em vez de simplificarem a paisagem, aumentaram deliberadamente a sua diversidade biológica.
Preservaram oito hectares de floresta nativa que funcionam como barreira natural contra ventos excessivos. Criaram lagos, linhas de água e zonas húmidas. Construíram um jardim botânico vivo que inclui mais de 1.500 variedades de rosas antigas, inúmeras espécies de lírios, íris, zimbros, loureiros, sabugueiros, oliveiras e carvalhos-ilex, a árvore que deu origem ao próprio nome de Montalcino, derivado de Mons Ilcinus.
A propriedade tornou-se habitat para javalis, veados, raposas, ouriços-cacheiros, texugos, anfíbios, lagartos, serpentes, morcegos, aves insectívoras e milhares de espécies de insetos. Centenas de caixas-ninho foram instaladas para incentivar predadores naturais e promover equilíbrio ecológico. Uma secção inteira do jardim foi plantada exclusivamente com flores brancas aromáticas para atrair insetos noturnos e garantir polinização contínua durante as vinte e quatro horas do dia.
O resultado é um sistema agrícola extraordinariamente resiliente.
Enquanto uma vinha convencional depende frequentemente de intervenções corretivas, o ecossistema de Case Basse cria naturalmente mecanismos de equilíbrio. A biodiversidade reduz pressões sanitárias, favorece populações microbianas mais estáveis e aumenta a capacidade da vinha responder aos extremos climáticos.
A contribuição do ambiente natural foi fundamental: de facto, na Case Base nunca se utilizam herbicidas nem outros produtos químicos; o solo é fertilizado apenas com substâncias orgânicas e as fileiras de videiras são trabalhadas manualmente.
É precisamente por tudo isso que Soldera conseguia produzir vinhos de enorme profundidade mesmo em anos considerados difíceis.Para ele, o segredo nunca esteve numa técnica milagrosa de adega. Estava na construção paciente de um habitat completo.
Como escreveu:
"A great wine requires a habitat that is complete, unspoilt, in a word – perfect."
Talvez esta seja uma das maiores lições deixadas por Gianfranco Soldera. Os grandes vinhos não nascem apenas do solo ou da casta. Nascem da interação harmoniosa entre clima, geologia, plantas, animais, microrganismos e seres humanos.
Em Case Basse, essa harmonia foi perseguida durante mais de cinquenta anos. E continua a ser visível em cada garrafa.

Porque Soldera continua a ser um unicórnio
Hoje, quando falamos de Soldera, falamos de um dos vinhos mais raros e disputados do planeta. Um verdadeiro unicórnio. A produção extremamente limitada aliada à procura global e presença em leilões famosos dão um tom ainda mais imponente a este magnífico vinho. Mas a raridade nunca foi o objetivo. Foi apenas a consequência inevitável de uma filosofia intransigente.
Como escreveu:
"The really good things are only for the few because there isn't enough for everyone."
Uma história que também é nossa
Talvez seja por isso que a relação da Temple Wines com Soldera tenha um significado tão especial. Não se trata apenas de representar um produtor lendário. Trata-se de preservar uma ligação humana que começou há décadas. Uma ligação construída através da amizade, da aprendizagem e do respeito.
Quando Guilherme Corrêa olha para Case Basse, não vê apenas uma das propriedades mais importantes do mundo. Vê o mentor que o recebeu quando era ainda um jovem estudante. Vê os almoços intermináveis. As viagens. As conversas. As lições sobre vinho. E sobretudo as lições sobre vida.
Porque no final de tudo, talvez a frase que melhor define Gianfranco Soldera não esteja relacionada com Brunello, Sangiovese ou Montalcino.
Mas sim com esta simples reflexão:
"Beauty and goodness take a lot out of you."
Poucas pessoas pagaram esse preço de forma tão absoluta. E poucas deixaram um legado tão profundo! Obrigado, maestro, por alguns dos melhores vinhos de nossas vidas!
E para finalizar, um bônus, as notas de degustação desta once in a lifetime vertical de Soldera que Guilherme participou.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA 1997, começou a prova retraído, com impresses de flores secas sobre terra molhada, macchia mediterrânea e folhas de chá. Sua moldura de taninos e ácidos era contudo gigantesca, e enquadrou os aromas de fruta com infusão de especiarias que se abriram depois de 1 hora, numa explosão inesperada. Me emocionei ao lembrar que fui, juntamente com minha esposa Paola, a primeira pessoa no mundo a provar este vinho ainda na botte, antes mesmo de Gianfranco, logo após o término da sua fermentação. 18-20" nota 18,5+ em 20.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA 1987, uma flor, a essência das 1.500 rosas raras da coleção de Graziella Soldera, um vino transparente ao terroir, comovente na sua elegância, na sua pura classe feminina, 20-22'", nota 18,5++ em 20.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA 1988, chegou depois do 1990 com uma juventude desconcertante, uma fruta negra divina, um densidade richebourgueliana, transbordando a energia característica de um Soldera, 22" de retro-gosto, 19+ em 20.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA 1990, peço aqui perdão pelo inevitável clichê, mas este é o melhor vinho que já bebi na vida, e não é só minha opinião. Consubstancia tudo de melhor de cada safra do Soldera em uma esfera perfeita, veemente e exótico, aéreo mas telúrico, pura energia e emoção. Antonio Galloni deu 100 para ele (dos 11 melhores Brunellos da história 7 são de Soldera no Vinous), e eu dou 20 de novo, e de novo, e de novo.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA CASE BASSE 1993, para o vinhedo Intistieti 1993 a Jancis Robinson conferiu a sua maior nota já atribuída a um Brunello na história, 19,5/20 (dos 5 melhores Brunellos para Jancis, são de Soldera). O nosso era do vinhedo Case Basse, com solos mais ricos, altitude menor e mais força. Este foi o vinho que notavelmente mais se alterou ao longo da prova, me lembrou o Romanée-St.-Vivant da degustação horizontal de DRC. Era todo sottobosco, caça e trufas, e terminou com um frutado angelical, carregado por uma boca de alta voltagem, absolutamente incrível em sua dinâmica borguinhã. Eu lhe conferi 19+ em 20.
SOLDERA BRUNELLO RISERVA INTISTIETI 1995, mais aberto de imediato, com minerais, cereja negra, muito savoury, elegante e massivo. Ultra longo 24", um belo clássico que mereceu meus 19+ em 20.