David Leclapart, uma visita que nos tocou o coração

 Champagne · Trépail, Montagne de Reims

Na vida, passamos por domaines que ficam na memória não apenas pelo vinho, mas por tudo o que as rodeia: a generosidade das pessoas, a simplicidade do lugar, e uma ligação que parece existir há muito mais tempo do que o tempo indica. A nossa visita a David Leclapart foi exactamente isso.

Chegámos a Trépail numa tarde fria e quase atrasados depois de virmos correndo de Chablis, onde visitamos a grande amiga da família Leclapart, a Athénaïs de Béru. David recebeu-nos em casa junto da sua querida esposa Carole e do filho Martin, a nova geração que, pouco a pouco e com toda a naturalidade, vai assumindo as rédeas da produção. Desde o primeiro momento sentimos uma hospitalidade genuína, sem cerimónias, daquelas que tornam uma visita profissional num momento mesmo íntimo.

A conversa fluiu como se nos conhecêssemos há anos. Agradecemos ao nosso amigo Alejandro Chavarro por nos ter feito esta introdução tão especial. Sem ele, este encontro não teria acontecido.


O movimento dos Champagnes de produtor, os chamados grower champagnes, é relativamente recente. O que hoje vivemos como grande moda, com uma geração inteira de consumidores a descobrir o terroir na Champagne, tem pouco mais de duas décadas de verdadeira expressão no mercado. Mas David Leclapart já estava lá muito antes. Em 1999, engarrafou pela primeira vez o L'Apôtre, a partir do parcelo mais antigo das suas vinhas, plantado pelo seu avô. Terroir, identidade, mínima intervenção. Tudo o que hoje se celebra, ele já praticava quando quase ninguém falava nisso. E fazia-o num dos climas mais exigentes e imprevisíveis de toda a França, e de toda a Champagne!, guiado pelos princípios da biodinâmica, numa época em que essa palavra ainda soava a heresia para a grande maioria dos produtores. Leclapart não seguiu uma tendência. Ele ajudou a criá-la.

"A adega de David Leclapart é, provavelmente, a menor que já vimos na vida."

A adega em Trépail: algumas barricas, uma visão.

Quando entrámos na cave, ficamos chocados! Ali estavam, à nossa frente, apenas algumas barricas. É tudo. Vocês podem ver no vídeo abaixo, é realmente só aquilo. É o que David precisa para produzir Champagnes que figuram entre os mais procurados e reverenciados do mundo!! É tudo tão minimalista e simples que parece que entramos na primeira parte da adega... e falta o resto. Durante muitos anos foi literalmente um homem só a conduzir toda a propriedade: as vinhas, a adega, os vinhos. Uma sinfonia a solo em Trépail.

Trépail: O Segredo da Montanha

David trabalha 3 hectares de Premier Crus em Trépail, certificados em biodinâmica desde 2000, distribuídos por vinte e duas parcelas (imagine o trabalho de cuidar de todas essas micro parcelas!) Cerca de 90% é Chardonnay, uma raridade numa zona onde o Pinot Noir domina a paisagem da Montagne de Reims. O restante é Pinot Noir, vinificado em Coteaux Champenois tinto ou em Champagne blanc de noirs.

Trépail é um terroir que exige tudo de quem o trabalha. A maior altitude da Montagne de Reims traz consigo um clima mais frio e adverso do que os villages vizinhos: quando a neve derrete em Ambonnay e Bouzy, em Trépail ainda está tudo branco. A humidade do solo e do clima cria desafios constantes, mas é exactamente essa pressão que dá às uvas uma tensão, uma acidez e uma mineralidade que não encontramos em mais lado nenhum (exceto na vila vizinha de Villers-Marmery, onde está nossa produtora  A.Margaine)


A floresta que rodeia o village tem uma influência marcada: a erosão de silex que desce da montanha inunda os terroirs abaixo, e os solos oscilam entre Campaniano superior e inferior. Mesma época geológica, dois perfis distintos.  Os solos têm apenas 40 a 80 centímetros de terra sobre a rocha calcária, e é precisamente essa escassez que força as raízes a mergulhar fundo e a extrair o que há de mais mineral e tenso nesta encosta voltada a oriente. Nos parcelos mais a norte, o solo ganha um pouco de profundidade e surgem os afloramentos de silex, o sílex que traz ao vinho notas de mentol e anis, uma acidez cortante e uma vitalidade que poucos terroirs da Champagne conseguem igualar. É desta tensão, desta austeridade calcária, que nascem os Champagnes de David Leclapart, hoje uma referência absoluta para o village e para toda a Montagne de Reims.

David descobriu a biodinâmica depois de uma conferência de Nicolas Joly que o marcou profundamente. Desde então, não houve volta atrás. As vinhas são tratadas com uma dedicação quase monástica, e não por acaso: num certo momento da sua vida, David considerou tornar-se monge. Há nele algo de contemplativo, uma relação com a terra que vai muito além da viticultura.

Leflaive, No Dosage, Sem Pressa

Os vinhos de Leclapart são todos produzidos sem dosagem e com sulfuroso reduzido ao mínimo. Para a fermentação, David utiliza barricas de segunda mão adquiridas ao Domaine Leflaive na Borgonha, uma ligação que marca o perfil aromático e a estrutura dos seus Champagnes. Apenas o L'Amateur não passa por madeira; todas as outras cuvées são total ou parcialmente fermentadas em barrica.

Desde a colheita de 2020, o filho Martin integrou oficialmente o domaine. Desde 2023 é ele o responsável por todas as cuvées de Coteaux Champenois, uma linha que será lançada pela primeira vez este ano. É emocionante ver uma história assim a passar de mãos, com cuidado e continuidade.

Quatro Champagnes. Uma Visão.

  • L'Amateur Assemblage de seis parcelos em Trépail. Sem madeira, fermentado em inox e esmalte. A entrada no universo Leclapart, e que entrada. 2022 foi um ano solar, mas que favorece as condições do terroir de Leclapart e esta champagne estava rica, mas completamente em harmonia. 
  • L'Artiste Chardonnay de 50 anos, 100% vinificado em barricas antigas do Domaine Leflaive. Uma "descoberta do terroir", como David descreve: cada ano é um parcelo diferente, uma aprendizagem nova. "Eu estou à procura de prazer". Sem reserva, colheita única.
  • L'Apotre A cuvée mais icónica. 100% Chardonnay do parcelo "La Pierre St-Martin", com vinhas plantadas em 1946. Barricas de segunda mão do Leflaive. Um Champagne de uma concentração e profundidade raras.
  • L'Astre Anteriormente L'Alchimiste. 100% Pinot Noir de vinhas entre 40 a 50 anos nos parcelos Le Champ Janvrai e La Fleuranne, no sul de Trépail. Vinificado em barrica. Zero dosagem.

Os Champagnes de David são ao mesmo tempo austeros e generosos, tensos e profundos, com uma mineralidade calcária que persiste longamente no palato. São vinhos que fazem perguntas, e que nos fazem querer voltar a Trépail para procurar as respostas.

"Uma ligação como se nos conhecêssemos há muitos anos. Esses momentos são a razão pela qual fazemos o que fazemos."

Saímos de Trépail com o coração cheio. Obrigado, David. Obrigado, Carole. Obrigado, Martin. E obrigado, Alejandro, por nos teres aberto esta porta.

Os vinhos de David Leclapart já estão disponíveis em alguns dos melhores restaurantes de Portugal. 

Temple Wines · Junho 2025 · Trépail, Montagne de Reims